Google+ Experimento: Rompimentos.

sábado, 7 de setembro de 2013

Rompimentos.

     Engravidei aos 16 anos. Primeiro vieram os sintomas físicos:  fraqueza, vômitos repentinos, entre outras coisas. No primeiro momento pensei estar doente, mas logo senti que estava grávida. Em meio a um receio angustiante fiz testes rápidos comprados na farmácia para confirmar. Dois grandes "positivos". Meus pais já andavam preocupados com a possível gravidez e logo confessei, não conseguiria mentir.
     Eu sentia um pavor e um desespero imensuráveis, havia um ser estranho se formando dentro de mim, mesmo assim eu era obrigada a aceitá-lo enquanto até meus próprios pais consideravam minha gravidez uma desgraça. Estava tudo um caos dentro e fora de mim. Eu, que desde cedo pensava em nunca ter filhos, que aprendi a olhar torto para as garotas que engravidavam "cedo demais", agora me via na berlinda dos julgamentos.
     Só eu sabia agora que engravidar mais cedo ou mais tarde não tinha relação com meu caráter, que não me tornava alguém mais "moral" ou "imoral" que alguém. Mas não poderia dizer isso às outras pessoas que, assim como eu, foram ensinadas a repugnar as gestações "precoces".
     Meus pais se desesperavam e praguejavam contra o meu namorado, meus amigos lamentavam e alguns até choravam. Pela minha pequena cidade natal inteira a notícia da minha gravidez se espalhava, acompanhada de boatos absurdos, dos quais poucos chegaram aos meus ouvidos, mas eram o suficiente para me provocar mais perturbação (por exemplo, uma amiga me contou uma vez "uma pessoa que você conhece disse que você já esteve grávida antes e que já cometeu aborto"). Coisas do tipo, "no teu lugar eu me trancaria no quarto e choraria o dia inteiro" eu ouvia regularmente. As pessoas decretavam o fim da minha vida. Nos meus momentos sozinha, toda a dor e medo que eu sentia eu não sabia se eram causadas só pelas mudanças que minha vida estava sofrendo ou se eram criados pelo quadro de desgraça que a cidade pintava sobre minha gravidez.
     Fui criada para valorizar uma futuro de conforto financeiro, de status social. Eu deveria terminar os estudos e concluir um curso na universidade federal, ter uma carreira estável, ser mais uma boa engrenagem do atual sistema econômico e social. Engravidar antes de tudo isso fez de mim uma peça quebrada. E mais que isso, uma garota menos respeitável e menos responsável. Isso tudo me fez sofrer, tive que reconstruir a ideia de vida que eu aprendi a ter como objetivo desde sempre ao mesmo tempo que tinha que lidar com as mudanças físicas, hormonais, fisiológicas, emocionais...
     Não deixei de ir ao colégio. Já estava no último ano do ensino médio (cheguei mesmo a fazer as últimas provas de vestibular para estudar na UFPB e passei com boa colocação). No meu corpo magro, as mudanças ficaram aparentes e lembro de uma aula em que um professor me olhou e perguntou "Victória, teu rosto está meio inchado, você está bem? Está doente?" e eu respondi como se não me importasse com qualquer reação, "não, é que estou grávida". Não olhei os rostos dos colegas, mas o professor respondeu algo como "ah, parabéns, você vai ver a felicidade que é ter uma criança". Essa resposta foi um dos poucos exemplos de apoio externo que eu tive. Com exceção do meu namorado (que morava muito longe de mim), que era a única pessoa que conseguia me dar algum suporte psicológico e ajudar na "capa" e na nova visão de mundo que eu estava tentando construir pra mim. Meus pais cuidaram da minha saúde física, no mais, quase não havia diálogo.
     Eu me sentia sozinha e tomada por um estranho vazio. Por mais que eu tente descrever, aquele sofrimento não pode ser compreendido por meio de palavras.
     Na escola, o ano letivo estava acabando e com ele acabava também minha adolescência. Ao menos era o que parecia.


     Eu no meio, último dia na escola.* 

     Eu não queria criar meu filho sem pai e meu namorado não queria ficar longe do filho. Sobretudo, eu precisava que ele estivesse comigo nessa minha nova vida de mãe. Então, decidi ir embora da minha cidade, do meu estado, para ir morar com o pai do meu filho. Meus pais acabaram vendo que não deveriam me impedir, mesmo eu sendo sua única filha. Minha mãe me deu até um presente de despedida, feito que nunca esqueci.
     Depois só me recordo de uma amiga que foi chorando deitada no meu ombro, dentro do carro, no caminho até o aeroporto, para minha viagem de mudança. Lembro de como me senti sufocada quando as portas do avião se fecharam, meu namorado dizia "se quiser desistir, ainda há tempo". Eu fechava os olhos e chorava. Quando o avião finalmente ia decolar, ele me beijou no rosto, "muito obrigada por escolher me seguir".
     Lá fora eu deixava minha vida, meus pais, meus amigos, tudo que eu conhecia, para trás. Mas a essa altura eu já estava decidida a aceitar minha nova vida e fazer o meu melhor. Já esperava meu filho com ansiedade. Depois de tanta confusão eu só queria conhecer o meu filho e renascer junto com ele.
    Depois de me acostumar a nova casa, aos novos amigos e de terminar os preparativos para o nascimento do meu filho, eu não aguentava mais esperar. Nas últimas semanas de gravidez, meu corpo já estava cansado e eu precisava olhar enfim aquele intruso pequenino.
     Eu esperava ter um parto normal, sem intervenção cirúrgica. Eu e o bebê estávamos perfeitamente saudáveis. Até que num dia o bebê que era tão agitado parou de se mexer. Eu e meu companheiro pensamos que ele devia ter finalmente encaixado a cabecinha na minha bacia e que eu logo entraria em trabalho de parto. Mas um dia inteiro se passou e nem mesmo à noite, quando a criança costumava se agitar mais, o bebê deu sinal de vida. Na manhã seguinte, depois de alguma hesitação, resolvemos ir à maternidade. Quando finalmente consegui ser examinada com ultrassonografia, percebi que o médico estava preocupado e mudava insistentemente o aparelho de posição no meu ventre. Até que ele parou. "Infelizmente, o bebê está morto". Tentei me manter calma, as lágrimas escorriam pelo meu rosto, mas não me desesperei. A dor me apertou mais quando contei ao meu marido, nós chorávamos muito. Para piorar tudo, fui obrigada a sentar imediatamente e receber um acesso intravenoso onde injetar medicação para expulsar o corpo do feto de dentro do meu. Logo fui internada e separada do meu companheiro.
     Enquanto sentia a triste dor de perder meu filho, do meu mundo que outra vez se desfazia, sentia o terror de ter um cadáver dentro do meu corpo, de ter que dar à luz uma criança morta.
     Como a causa da morte do feto era desconhecida, o parto normal teve que ser induzido. No caso de alguma infecção, uma cirurgia poderia me contaminar. As medicações de indução demoraram para fazer efeito, mais de um dia. Era um pesadelo. Até que enfim eu entrei em trabalho de parto. Foi rápido e extremamente doloroso. No final, um médico precisou pressionar minha barriga para ajudar a expulsar o corpo do bebê. Senti como se eu estivesse morrendo. Até que senti meu filho sair. Esgotada de todas as minhas forças, ainda conseguir pedir à equipe de médicos que me deixasse ver o meu bebê, precisava saber como ele era. Uma médica enrolou o corpinho em um lençol e me mostrou com receio. Ouvi alguém dizer "mostra só o rostinho", mas eu levantei o que pude do lençol e ainda consegui ver até os bracinhos e a barriga. "Ele é lindo", foi o que consegui dizer (era um menino com aparência perfeita, pesava 3,4 kg e media mais ou menos 53 cm, até hoje imagino o quão bonito seria com os olhos abertos, se tivessem vida...), estava dopada pelo cansaço e pelo alívio de terminar o parto.
     Nem pelos exames de necropsia descobriram a causa da morte do meu filho, eu já havia lido que casos de morte súbita de fetos ainda no útero são relativamente comuns. Nos dias em que fiquei em observação antes de receber alta da maternidade, ouvia todos repetirem "Deus sabe o que faz". Mas eu nunca questionei Deus ou quem quer que fosse sobre isso. Não culpei ninguém, simplesmente entendia que a natureza tem suas falhas e vi várias mulheres na mesma situação que eu. Apesar de estar sofrendo, entendi que eu não era especial. Esse entendimento foi que me fez ser forte. Além disso, era necessário que muito mais tempo se passasse até que eu conseguisse digerir tudo que havia acontecido comigo.
     Voltar para casa foi um alívio, mas o sofrimento não havia terminado ainda. Mesmo com as compressas geladas para inibir a produção de leite, minhas mamas inflaram e queimavam absurdamente, me fazendo chorar de dor. Eu não queria mais pôr nem um pé num posto de saúde sequer, não suportava mais o ambiente hospitalar. Então, durante semanas usei o que pudesse nos seios para absorver o leite que ia vazando e deixando de ser produzido aos poucos. Durante esse tempo, eu me sentia frustrada, incompleta, inútil, e, na falta do meu pequeno rebento, desejava ter qualquer outro animalzinho que eu pudesse amamentar. Esse desejo foi uma das coisas que me fez compreender o que eu era primeiramente.
     Os meses se passavam e, apesar das sequelas psicológicas e emocionais que ficaram (desde a minha gravidez até a morte do meu bebê), eu estava melhor do que as pessoas que sabiam da minha situação imaginavam. Apesar da boa vontade dessas pessoas, eu não suportava mais ouvir "Deus sabe o que faz" ou ainda "desculpe, eu não devia tocar no assunto". O constrangimento das pessoas me incomodava. Sempre fui meio alheia a convenções sociais, então a necessidade que as pessoas tinham de repetir as mesmas falas para me consolar me incomodava (ainda mais quando não precisava). Eu preferia poder falar normalmente sobre a morte do Bernardo.
     Meses após perder o meu filho, viajei à minha cidade natal a pedido dos meus pais. Talvez todos tenham esperado que eu voltasse para ficar, que eu retomasse minha vida de antes da gravidez. Mas eu havia mudado profundamente. Já enxergava o mundo com outros olhos, apesar da saudade da minha vidinha tranquila de antes. Já tinha ganhado uma certa independência dos meus antigos conceitos e da terra natal. De certa forma, eu já não pertencia mais àquele lugar. A lugar algum.
     Ao menos algumas vantagens eu ganhei em meio a tantas mudanças dolorosas: eu cresci por dentro, eu vi que tenho muito mais forças do que aparento ter, passei a enxergar a realidade mais nitidamente e me senti com uma nova espécie de liberdade. Uma liberdade de me refazer.

Ps. este relato foi feito por uma necessidade de desabafo simbólico, mas também com a intenção de talvez ajudar quem possa aprender algo ou encontrar algum apoio na minha história. Espero que tenham tido coragem de ler isso tudo. =)

* No último dia na escola meus colegas me presentearam com uma cesta cheia de produtos para bebês, mas não relatei para não me estender ainda mais.

8 comentários:

  1. e aqui no rj eu e amigos mais próximos estavamos te aguardando ansiosamente :)

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  2. nao sinto q consiga perceber, pois nao passei por isso. mas acho a tua força estonteante e um exemplo para quem tem problemas menores e os torna como se fosse uma tempestade num copo de agua... porque eu acredito q ha sempre alguem a dar-nos a mao c uma boa razao para continuarmos a sorrir....

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  3. Gosto do que escreve, uma jovem guerreira, Deus abençoe vocês.
    abraços.

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  4. Vi agora pelo facebook essa tua publicação no ask, não sou de mexer no meu, mas senti uma vontade enorme em escrever aqui agora. Eu estudava (e ainda estudo) na mesma escola que estudara nesse tempo da tua gravidez. Eu tinha uns 13 anos, e nesse tempo o assunto da escola era justamente você. Escutava muitos comentários, como estes que você citou e sempre contestava com as pessoas " Caramba, como vocês se importam com a vida alheia!" Sempre, sempre falava! Por algum motivo, me identifico muito com você, não sei o porque, mas me identifico. Este teu relato me emocionou e me fez refletir muita coisa na minha vida. Minha mãe já perdeu um filho também e sei de uma forma indireta o que você passou. Você é uma guerreira, já passou poucas e boas apesar da idade. O que acontece na nossa vida, acontece por algum motivo. Não to conseguindo colocar tudo que eu penso por que o comentário iria ficar enorme rsrs'. Enfim Victória, saiba que admiro muito a pessoa que você é, sempre li teus relatos e sempre me identifiquei. Desculpe minha gramática horrenda. Rs Abraço! - Jéssika Martins.

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    1. Se todas as pessoas à minha volta tivessem sido como você, minha vida teria sido muito mais fácil naquele tempo. Fico feliz em saber que meu relato fez você refletir sobre alguma coisa. Muito obrigada pelo comentário e pela admiração. Abraço. ;)

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